Guia do Foca

19 de novembro de 2009

Esquadrão da Morte

Filed under: Sem categoria — jorgecardoso @ 17:56

Fala com Julio Cezar Garcia é uma aula de jornalismo. Durante uma conversa minha e dele na redação do jornal BOM DIA de Rio Preto, ele me explicou, dentre várias coisas, como foi fazer uma matéria para o jornal Movimento, de São Paulo, sobre um grupo de extermínio em Vitória, no Espírito Santo.

Atentei-me para o caso e, com papel e caneta, e uma conversa informal, fui anotando. Antes de anotar, e questionar Julio, eu deixei que ele contasse a história como melhor ele achava e lembrava. Depois, de forma informal, fomos conversando e montando as perguntas. Nada planejado.

Matéria publicada no jornal Movimento

Como lhe foi passada a pauta sobre o caso de Vitória, cuja matéria saiu como Testemunha de Acusação?
A pauta me foi passada por um colega jornalista de Vitória (ES) que não conseguia publicar nos dois jornais de lá (A Tribuna e A Gazeta) as denúncias sobre as ações do esquadrão da morte.

Você trabalhava no jornal Movimento, fazia algum freelancer para eles, ou tinha apenas o conhecimento do jornal, na época da Ditadura?
Eu trabalhava na Editora Abril, em São Paulo, e estava de férias. Levei a pauta ao editor de Veja, Augusto Nunes, mas ele disse que a revista não conseguiria publicar, por causa da censura prévia que havia nas redações. Sugeriu que eu fosse ao Movimento. O Movimento era um jornal semanal da chamada imprensa alternativa, isto é, que não pertencia à chamada grande imprensa (Estadão, Folha, Última Hora, O Globo, Jornal do Brasil, etc), que se alinhava com a ditadura.

Quando você apresentou a pauta ao jornal, qual foi a reação do editor?
O Movimento topou a pauta. Como já disse, eu estava em férias e queria conhecer Vitória. O Movimento ofereceu pagar minha gasolina e minha estada em hotéis de Vitória, em troca da reportagem.

Qual a imagem e as notícias que chegavam para vocês do Esquadrão da Morte?
O esquadrão da morte de Vitória já havia feito várias vítimas inocentes. Era chefiado pelo superintendente de Segurança Pública do Estado do Espírito Santo, José Dias Lopes, irmão do ex-governador Cristiano Dias Lopes. Na época, os governadores eram indicados pelos presidentes militares (Castello Branco, Costa e Silva, Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo).
Cristiano foi governador em um período marcado por escândalos de corrupção. Na época, qualquer adversário a seu governo era ameaçado e perseguido pela polícia. Ele utilizava até o esquadrão da morte de seu irmão para aterrorizar adversários nas vilas da Capital.

Como fez para consolidar a pauta? As pessoas sabiam que você estava indo cobrir algo tão perigoso assim?
Chamei um amigo para se revezar ao volante comigo e fomos. Meu amigo era muito medroso. Ele sabia que naquela época os jornalistas eram perseguidos, alguns tinham sido presos, torturados ou mortos. Ele perguntou o que eu ia fazer lá. Respondi que eram reportagens de turismo. Ele topou. Se soubesse qual era a verdadeira pauta, não teria ido.
Quando chegamos à casa do advogado Ewerton Montenegro Guimarães, que estava publicando um livro com as denúncias contra o esquadrão da morte, meu amigo quase desmaiou. Só me lembro dele, afundado no sofá da sala do advogado, resmungando:
– É turismo, desgraçado? Isso é turismo? (risos)

E depois de explicar para ele, consolidar a matéria, como foi a aceitação, tanto por parte do jornal, que deveria sofrer também com a censura, como dos leitores?
O jornal Movimento também sofria uma censura raivosa da ditadura. Mas a minha reportagem, um pingue-pongue com o Ewerton Montenegro, saiu na íntegra. Ficamos muito felizes e a repercussão da matéria foi grande na época. O editor do Movimento, Raymundo Pereira, ligou para a sucursal de Brasília, e perguntou ao chefe da sucursal, Teodomiro Braga, o que havia acontecido para que a censura deixasse sair a matéria.
Ele foi pesquisar e voltou com a informação. Cristiano Dias Lopes tinha caído em desgraça com o ditador de plantão, Ernesto Geisel. Cristiano tinha peitado Geisel porque queria ser novamente governador. E Geisel tinha preferência por outro nome. Cristiano chegou a afoirmar a amigos de Geisel:
– Se eu não for candidato, conto tudo o que sei de podre dos governos militares. Ponho fogo no Espírito Santo e no Brasil com o que sei.

E a matéria foi além do simples ato de informar?
Minha reportagem desmoralizou Cristiano e acabou usada pela própria ditadura para inviabilizar a tentativa dele de ser governador de novo.

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